TV Pirata - Once Brothers

Tomo emprestado este texto da coluna do jornalista André Barcinski para apresentar mais uma edição da sessão TV Pirata. Antes, um aviso: o filme abaxo não tem legendas em português, mas ainda assim vale muito a pena ser visto.
Há uma semana, escrevi sobre a morte do boxeador cubano Teofilo Stevenson e sobre como a Guerra Fria impediu confrontos entre esportistas dos mundos capitalista e comunista.
Vários leitores lembraram um documentário que mostra como outra guerra – a da Bósnia – acabou com uma longa amizade entre dois jogadores de basquete.
O filme se chama “Once Brothers” e foi produzido em 2010 pela ESPN para celebrar o 30º aniversário da emissora. Se achá-lo em alguma reprise ou DVD por aí, não deixe de ver.
“Once Brothers” conta a história da grande seleção iugoslava de basquete surgida no fim dos anos 80. Liderada pelo gênio Drazen Petrovic, o time contava ainda com ótimos jogadores, como Vlade Divac, Tony Kukoc e Dino Radja.
A Iugoslávia foi vice-campeã olímpica em 1988 e depois ganhou os títulos mundial e europeu. Um timaço. Seus melhores jogadores foram para a NBA, a milionária liga de basquete profissional norte-americano.
Vlade Divac, um pivô meio desengonçado mas eficiente, dono de um temperamento alegre e brincalhão, foi para o grande Lakers de Los Angeles, onde jogou ao lado de Magic Johnson.
Já Drazen Petrovic, um armador de talento quase sobrenatural, foi para o Portland Trailblazers, onde sofreu com a concorrência de grandes jogadores da posição (Clyde Drexler, Terry Porter) e nunca conseguiu se firmar.
Nos Estados Unidos, Vlade e Drazen tornaram-se grandes amigos. Vlade ajudou muito Drazen quando este entrou em depressão por causa dos problemas com o time. Depois, Drazen foi trocado para o New Jersey Nets e começou a se firmar como um dos grandes craques na NBA.
Mas foi aí que a realidade atrapalhou: depois da queda do Muro de Berlim e da iminente dissolução da União Soviética, a Iugoslávia começou um processo de separação entre suas repúblicas. Até então, os jogadores se consideravam iugoslavos. Mas Vlade era sérvio, enquanto Petrovic era croata.
Um acontecimento piorou as coisas: em 1990, quando a Iugoslávia ganhou o campeonato mundial na Argentina, um torcedor invadiu a quadra carregando uma bandeira croata. Vlade se irritou e arrancou a bandeira da mão do torcedor. Vlade diz que o ato não foi uma reação aos croatas, mas um gesto de revolta com as brigas que dividiam o povo iugoslavo.
O ato foi visto como um insulto pelos croatas e um gesto heróico pelos sérvios. E Vlade, um ser apolítico e até ingênuo, se viu no meio de um conflito étnico que ajudou a piorar a situação na Iugoslávia.
Logo depois, quando a guerra entre Sérvia e Croácia começou, e o governo sérvio iniciou um processo sangrento de “limpeza étnica” na região, Petrovic rompeu com Vlade.
Em 1993, durante uma excursão da seleção croata na Europa, Drazen Petrovic morreu num acidente de carro. E Vlade nunca conseguiu fazer as pazes com o amigo.
“Once Brothers” traz imagens impressionantes: quase 20 anos depois do “incidente da bandeira”, Vlade anda por Zagreb, capital da Croácia, e é hostilizado por croatas. Prova de que as feridas ainda vão demorar muito para cicatrizar por lá.






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